Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado na revista The Lancet Psychiatry analisou os registros eletrônicos de saúde de mais de 236 mil pacientes de COVID-19 – a maioria dos EUA. Foi descoberto que 34% haviam sido diagnosticados com problemas psiquiátricos ou neurológicos dentro de seis meses após terem sido infectados por coronavírus. Apontou-se, também, que 17% dos pacientes de covid-19 foram diagnosticados com distúrbios de ansiedade e 14% com distúrbios de humor, incluindo depressão.
Quanto à saúde mental, é importante dizer que as sequelas da pandemia são em maior número do que o total de mortes. Os sistemas de saúde dos países entraram em colapso, os profissionais de saúde estão exaustos com as longas horas de trabalho e, além disso, o método de controle mais efetivo da doença, que é o distanciamento social, impacta, consideravelmente, a saúde mental da população
O isolamento social – com a distância dos familiares e o rompimento dos vínculos – e o sentimento de luto e de insegurança, frente a um futuro incerto e desafiador, são aspectos impactantes tanto para os especialistas, médicos de diferentes áreas, cuidadores, como para a sociedade em geral.
Além do medo de contrair a doença, a COVID-19 tem provocado sensação de insegurança em todos aspectos da vida, desde a perspectiva coletiva à individual, do funcionamento diário da sociedade às modificações nas relações interpessoais.
1) MEDICALYS – Com o grande número de profissionais de saúde expostos, constantemente, a situações clínicas graves e óbitos, muitos estão mais suscetíveis ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Como está sendo encarado essa situação por esses profissionais?
Dr. Alfredo Minervino – Os profissionais de saúde, em geral, e, particularmente, os médicos têm se deparado, cada vez mais, com situações estressantes de grande vulto: perdas de pacientes que poderiam ser salvos, falta de equipamentos adequados, cargas de trabalho estressantes e, até, falta de recursos humanos capacitados para lidar com essa pandemia. Mas lidar com a fila da morte onde o médico é, ocasionalmente, obrigado a fazer as vezes de Deus e decidir quem pode ter uma chance à vida e quem vai morrer gera traumas imensos e podem, sim, fazer com que esses médicos sejam diagnosticados com TEPT. O problema é que eles nem podem ter direito ao tratamento, pois não há quem os substituam e acabam virando um misto de super-herói com Deus, sem ter talento para ser o primeiro e condição nenhuma de sonhar em ser o segundo. Os mais suscetíveis são os intensivistas e os clínicos, que encaram isso com um mecanismo de defesa inadaptado de esquiva até que a exaustão o pegue ou a covid o pare. Estão literalmente no fio da navalha.
2) MEDICALYS – Como essa pandemia impactou na saúde mental dos idosos, visto que, por um tempo, muitos deles ficaram longe dos seus entes queridos?
Dr. Alfredo Minervino – Os idosos foram os primeiros a serem atingidos. Separados de suas famílias por proteção destas ou por necessidade de protegê-los, passaram a ter o status de dependentes – o que nenhum idoso gosta de ter – e, com isso, o isolamento deu passagem a transtornos depressivos e/ou ansiosos. A dependência química, principalmente de álcool e tabaco, tomou grandes proporções e, se isso não bastasse, ficaram incapacitados de irem aos consultórios médicos para suas consultas de rotina, como cardiologistas, geriatras, entre outros, ficando muitos sem suas medicações e cuidados, aumentando muito o risco de vida em decorrência disso. Portanto, ficaram “protegidos” do vírus, mas desprotegidos das outras doenças, além, é claro, de terem que lidar com o isolamento e solidão. A “revolta” com isso deu lugar a “traquinagem” das fugas domiciliares para supermercados, ruas e, também, para visita aos familiares. Somado a isso, aumentou o número de acidentes domésticos, como quedas da própria altura e vários internamentos por piora das doenças de base e do nível de autocuidado.
3) MEDICALYS – Durante o isolamento social, todos nós ficamos sem ter contato físico e cumprimentos, como abraços e apertos de mãos. Como a população, em geral, encarou essa nova forma de viver? Dr. Alfredo Minervino – Ela encarou de duas formas: ou a obediência ao isolamento e a não prática de atitudes que demonstrem carinho e o medo de morrer, ou se resignou à condição desse novo “normal”. Porém o mais curioso é que as pessoas se dizem saudosas desses gestos, mas encaram bem e já fazem disso um novo modo de vida. As crianças e os idosos são, sem dúvida, os mais atingidos pela frieza do contato, que se somou ao medo de morrer ou de levar a morte a quem amamos. Nesse momento estamos sucumbindo ao desejo em prol da razão.
4) MEDICALYS – Lockdown, muitas empresas de portas fechadas e sem faturar e muitas delas falindo: como isso impactou a saúde mental dos empresários, funcionários e seus relacionamentos interpessoais?
Dr. Alfredo Minervino – Esse foi, talvez, o motivo que trouxe mais pessoas aos consultórios psiquiátricos. Pessoas que tinham uma estabilidade econômica em suas empresas e agora não tem condições de pagar seus funcionários e viram seu patrimônio ruir, sem poder nada fazer. Muitos tiveram depressão, transtornos de ansiedade e/ou problemas com dependência química. O impacto foi – e ainda é – imenso ao ver tudo o que você construiu ruir, e o sustento de sua família e de seus funcionários desaparecer. Foi muito desgastante. Tivemos muitos suicídios e testemunhamos a inversão dos papéis de ter uma condição econômica satisfatória ser trocada pela incerteza do amanhã. Esses empresários ainda buscam explicações para o que aconteceu e muitos tiveram que se reinventar ou reinventar os seus negócios. Mas todos passaram por um período de luto muito grande e, por vezes, apresentaram depressão, ansiedade e ideação de suicídio ou de ruína. Infelizmente, o apoio psicológico e psiquiátrico não chegou a todos, sendo que muitos tinham apenas a família como testemunha e co-partícipes de suas ruínas e, com isso, também veio a vergonha e a sensação de inoperância e incompetência sem, contudo, terem qualquer culpa disso. Talvez os empresários tenham sido uma das classes profissionais mais afetadas pelos transtornos mentais.
5) MEDICALYS – Durante a pandemia, a criação e a utilização de soluções tecnológicas foram aceleradas e ampliadas. Os profissionais de saúde tiveram que lidar também com essa nova situação de aprendizado, causando uma ansiedade a mais. Isso influenciou na saúde mental desses profissionais?
Dr. Alfredo Minervino – Como nas guerras, o período de pandemias serve para acelerar, também, as descobertas e a utilização de novas tecnologias ou novos conhecimentos. É um período, também, de experimentação. Logo, o que é novo nos assusta, nos desafia, nos coloca numa posição de enfrentamento ou fuga, faz o estresse aparecer e influenciar em atitudes e posturas nossas. Alguns profissionais passaram por situações inusitadas: os médicos mais jovens precisaram se adaptar, rapidamente, a rotina dos médicos mais velhos sem ter experiência para isso e sem ter o espaço e tempo para poder errar; e os médicos mais experientes tiveram que se adaptar à falta de materiais e insumos, à falta de conhecimento no tratamento da doença , à improvisação, à chegada de novas tecnologias, à introdução de novos protocolos e a lidar e ter que ensinar os outros médicos, por vezes, recém formados. Isso tudo somado ao estresse do tratamento urgente. O resultado só podia ser mais ansiedade, mais estresse e mais casos de depressão. Mas nem tudo foi ruim. Tivemos que crescer no conhecimento e nas relações profissionais. Demos muito mais valor aos outros profissionais de saúde e voltamos a vibrar mais com nossas vitórias quando vencíamos o vírus em cada paciente que sobrevivia ao caos. Os profissionais ficaram, literalmente, alertas, mas acredito que, assim como a ansiedade, a sensação de incapacidade, a necessidade de estudar o novo, in loco e in vivo, fez crescer, também, o sentimento de cuidado ao próximo e ao colega. Porém, infelizmente, o auto cuidado continuou ficando para trás, ou por falta de tempo, ou por auto negligência.
6) MEDICALYS – Crianças e adolescentes sofrem mais com a saúde mental em virtude da COVID-19?
Dr. Alfredo Minervino – Esse grupo certamente sofre bastante. As crianças, infelizmente, em muitos casos, são vítimas de violência doméstica, sofrendo, por vezes, de forma silenciosa e cúmplice de outros familiares, as agruras sofridas por pais ou parentes próximos.
Certamente, o fato de estarem afastadas das aulas neste período de forma regular, não terem mais a rotina cronológica de suas atividades, terem de se adaptar a brincar em silêncio, já que muitos adultos iniciaram suas atividades em home office, não disporem de amigos próximos, começarem a trocar seus brinquedos pelas tvs, sejam em programas nem sempre infantis, seja em vídeo games, isso tudo deixou a criança ansiosa e, cada vez mais, dependente de tecnologia para poder se divertir ou interagir, seja com adultos ou com outras crianças.
Vivemos a era das redes sociais e do contato virtual, perdendo, assim, a oportunidade de conviver de forma real com as frustrações e motivações, com as conquistas e perdas, na ilusão da conquista fácil, como nos filmes ou games que os dispõem no isolamento.
Os adolescentes também tem sofrido muito. É um grupo que se reúne frequentemente, tem tribos, turmas, vive em sociedades de iguais, têm na sua essência a maior necessidade de contato, o período das descobertas, sejam elas de qualquer monta: sexuais, de identidade ou profissionais. É o período do “pode tudo”, do transgredir, do aprender e do errar, entretanto nem isso está disponível, e se envolvem cada vez mais em tecnologias e em grupos sociais virtuais. Também são vítimas de violência doméstica da mesma forma que as crianças, mas sofrem muito por não terem a oportunidade do experimento básico da vida que é viver intensamente suas relações. Está para crescer uma geração de adolescentes que desconhece o aperto de mão para celebrar o compromisso, o abraço para passar a emoção e o beijo para celebrar o amor. Estes sofrem muito, mas me pergunto se pela falta ou pela ignorância de não ter experimentado.
7) MEDICALYS – Como você disse anteriormente, a violência doméstica e sexual aumentou consideravelmente com o isolamento social. O que esperar do futuro dessas crianças e adolescentes que estão sofrendo com tudo isso? Dr. Alfredo Minervino – É difícil prever o que virá, sobretudo porque a violência sexual também ocorre quando o casal, sob a tensão de estarem juntos em um espaço físico pequeno, por vezes, se depara com vontades opostas, desejos opostos, oportunidades opostas e quando isso acontece o mais frágil cede, e esse pode sim se tornar a válvula de escape do mais forte. Sendo assim, por subserviência, medo ou qualquer outro sentimento sucumbe aos desejos do outro e sofre violência sexual. Se isso for somado ao uso de drogas lícitas ou ilícitas – e o maior deles é o álcool – torna-se quase inevitável tornar-se rotina. Crianças e adolescentes submetidas a isso certamente cresceram com medo, ojeriza e, talvez, com uma profunda falta de identidade, podendo torná-los presa fácil de outros que se aproveitem daqueles com personalidade mais dependente. É preciso tempo e pesquisa para sabermos, exatamente, o que irá ocorrer, mas a nós cabe denunciar se virmos casos como esse ou orientar quando estivermos diante de vítimas dessa violência.
8) MEDICALYS – Mortes por outras doenças em virtude do não comparecimento a médicos tem aumentado com o isolamento social?
Dr. Alfredo Minervino – Demais. As pessoas não têm feito os seus tratamentos de forma correta, ou pela falta do médico assistente que ficou com seu consultório fechado, ou por medo de sair de casa. Submetem-se a fracionar comprimidos, a tomar de forma diferente do prescrito, a subestimar sintomas, ao receio de contrair o vírus, ao medo da família de levar seu ente querido ao hospital ou consultório, ou seja, tudo tem feito com que ocorram muitos óbitos. Os leitos reservados para tratamento de Covid têm ocupado o lugar de pacientes graves com outras doenças. O sintoma simples, que por vezes é um alerta, tem sido negligenciado, tem sido esquecido ou tem sido substituído pelo medo.
Com isso, doenças graves têm evoluído para desfechos desastrosos e morte, doenças crônicas e degenerativas têm piorado sua evolução e não fica registrado nas estatísticas de morte. Isso também é elevado nos pacientes com doenças mentais, depressão sem tratamento ou tratamento inadequado aumentando ainda mais o risco de suicídios e o aparecimento ou agravamento de transtornos de ansiedade generalizada, pânico e estresse pós-traumático, gerando graves problemas de saúde pública.
9) MEDICALYS – Quais suas dicas para nos mantermos com uma boa saúde mental mesmo com tudo isso que estamos vivenciando?
Dr. Alfredo Minervino – Viver bem é viver bem consigo mesmo, antes de tudo. Praticar atividades físicas regularmente, algo que você goste , que sinta prazer, ter um hobby, um lazer, fazer coisas que não faz diariamente, como jardinagem, artes manuais, pesquisas, manter um mínimo possível da rotina anterior, conversar mais com quem convive consigo, olhar no olho dessas pessoas e procurar entender o que elas querem dizer, se colocar no lugar do outro, ter compaixão, pois a compaixão nos leva mais próximos de Deus, buscar uma religião ou religiosidade, para poder compartilhar e entender os momentos da vida, fazer de sua profissão uma forma de prazer. Isso é ser prazeroso, fazer o que você escolheu fazer, poder encontrar e manter amigos. Sabemos que o convívio conosco mesmo é, muitas vezes, difícil, como dizia D. Helder Câmara, imagine com outros. Mas precisamos conviver para aprender a perder e a ganhar, para apreendermos que o outro existe e o nosso limite é sempre quando atingimos ou machucamos alguém. Então vem a nobre atitude de pedir perdão e seguir em frente sem errar novamente. Afinal, “…viver e não ter a vergonha de ser feliz …” deve ser sempre o lema a seguir.
10) MEDICALYS – Para quem está em um estado depressivo nesse momento que estamos enfrentando, quais as suas recomendações?
Dr. Alfredo Minervino – Procure um psiquiatra, pois isso pode fazer a diferença entre viver e morrer. Depressão é uma doença como outra qualquer na medicina, tratada por um médico como outro qualquer, o psiquiatra, mas que, se não for tratada, pode causar a morte por suicídio. Busque um profissional capacitado que tenha residência médica e/ou título de especialista em psiquiatria. Procure, também, uma psicoterapia. Não vá atrás de fórmulas mágicas, elas não existem e se existirem não funcionam e você pode estar perdendo um tempo precioso de tratamento. A depressão tem tratamento eficaz, tem um arsenal terapêutico psicofarmacológico imenso. Hoje, temos a eletroconvulsoterapia que permite uma melhora em 80% dos pacientes com quadros moderados a graves. Temos, também, a eletroestimulação transcraniana e vários outros métodos de tratamento.
Mas saiba: você pode ficar bem. Procure um psiquiatra.
Alfredo Minervino
Psiquiatra
CRM/PB 4632 | RQE 3424