Dr. Estácio Amaro formou-se na Universidade Federal da Paraíba e sempre se interessou pelo ambiente acadêmico, priorizando pesquisas de qualidade, o que não é fácil no Brasil, visto que os recursos destinados são insuficientes e a grande maioria destinada às regiões Sul e Sudeste. Especializou-se em psiquiatria (duas residências médicas: psiquiatria e psiquiatria da infância e adolescência) e tornou-se Mestre em psiquiatria pela UFRGS e Doutor em Neurociência Cognitiva e Comportamento pela UFPB. Após anos de atendimento clínico no tratamento e acompanhamento de transtornos mentais a crianças e adolescentes e, agora, como coordenador do curso de Medicina da UFPB, Dr. Estácio observa que não é fácil ser gestor, muito menos angariar recursos para o básico, como insumos e pesquisas.
MEDICALYS – Dr. Estácio, o Sr. se tornou psiquiatra com atuação em consultório no tratamento de pessoas com transtornos mentais como, por exemplo, o autismo. O que o fez abandonar o consultório para se dedicar, exclusivamente, à vida acadêmica?
DR. ESTÁCIO AMARO – A minha trajetória, enquanto estudante de Medicina, sempre foi baseada na busca pelo melhor conhecimento teórico e pela realização do tripé universitário: pesquisa, extensão e monitoria. Como percebia que os olhares eram focados para as doenças físicas, senti a necessidade de me voltar à saúde mental, o que me fez tomar a decisão de fazer residência médica em psiquiatria. E como também desejava poder ajudar crianças e adolescentes em sofrimento psíquico, decidi fazer psiquiatria da infância e da adolescência, circulando o Brasil de norte a sul. Porém como sempre me identifiquei com ensino e pesquisa, desejei, também, seguir a carreira acadêmica fazendo mestrado em psiquiatria, na UFRGS, e doutorado em neurociência, na UFPB. Fui aprovado em concurso público do magistério superior, na UFPB, que me deixou assaz honrado em poder ensinar e coordenar o curso de Medicina na instituição onde fiz a minha graduação. Após 15 anos da prática da clínica psiquiátrica, senti a necessidade de me aprofundar no campo científico, buscando encontrar respostas a hipóteses de pesquisa, por meio de pesquisas de qualidade. Para tal, tornou-se necessário afastar-me, ao menos por um período, das atividades da prática clínica e me voltar à ciência.
MEDICALYS – Ao se tornar coordenador do curso de medicina da UFPB, quais os desafios nessa nova empreitada?
DR. ESTÁCIO AMARO – Os desafios para cargos de gestão são inúmeros. É necessário lidar com recursos humanos e com os trâmites burocráticos do serviço público. Entretanto, quando existe o desejo de melhorar o funcionamento de um curso, com motivação e perseverança, dialogando com professores e estudantes, mitigam-se as dificuldades encontradas.
MEDICALYS – O CFM (Conselho Federal de Medicina) apontou que apenas 20% das faculdades de medicina brasileiras estão em municípios que atendem aos critérios considerados ideais pelas entidades médicas. Temos, na Paraíba, faculdades de medicina que estão fora desses 20%. Qual sua opinião sobre isso?
DR. ESTÁCIO AMARO – Preocupa-me bastante a abertura desenfreada de cursos de medicina sem atender critérios fundamentais para que haja a formação médica adequada. Além das instituições de ensino encontrarem-se em municípios que não seguem as necessidades reconhecidas por entidades médicas, há, portanto, a grande possibilidade de que o ensino, desde o ciclo básico ao internato médico, fique deveras prejudicado.
MEDICALYS – Atualmente, a Paraíba conta com 14 cursos de graduação de medicina. Das 353 instituições de medicina no Brasil, 173 foram abertas nos últimos 10 anos. O Sr. considera esse número um excessivo para a Paraíba? E no Brasil, qual sua opinião para a abertura de novos cursos e vagas de forma indiscriminada nos últimos anos?
DR. ESTÁCIO AMARO – A abertura de tantos cursos de Medicina, no Brasil, já me causa preocupação, aí me deparo com a quantidade em um único estado, a nossa Paraíba. Acredito que necessite ter uma justificativa plausível para tal e que tenha sido com embasamento da quantidade de vagas necessárias para a graduação em medicina e, consequentemente, o número adequado de médicos futuramente. Portanto, é essencial que exista uma elaboração de estratégias para que a distribuição dos médicos seja homogênea, tanto na capital quanto no interior, em áreas urbanas ou rurais, especialmente voltado ao estado ao qual as faculdades pertençam. Algumas universidades federais fornecem aos seus estados uma cota percentual à nota do ENEM para o ingresso, a exemplo da UFPB, que apresentará aumento de 10% da nota final.
MEDICALYS – Atualmente, temos 10 médicos formados para cada 100 mil habitantes, o que é um número consideravelmente maior que em países desenvolvidos. Número esse que pode ficar ainda pior, pois a previsão é que em 2025 haverá 18 médicos para os mesmos 100 mil habitantes. Com esses dados, o Brasil ocupará o terceiro lugar no ranque dos países que mais formam médicos por habitante, ficando atrás somente de Irlanda e Dinamarca. O que a população pode esperar com o nível desses profissionais?
DR. ESTÁCIO AMARO – Irlanda e Dinamarca, Europa, Brasil… Isso tudo já me incomoda e assusta. Não saberia dizer quais os critérios para a quantidade de médico por habitantes. Seria necessária uma busca para a compreensão do funcionamento em países do 1º mundo. Será que existe política de carreira médica lá? Será que os médicos são distribuídos homogeneamente em todas as regiões, sendo capital ou interior, sendo área urbana ou rural? No Brasil, não há incentivo para interiorização da medicina, não há projeto de carreira médica. Médicos podem ganhar muito dinheiro, mas para tal precisam estar ativos, não podem adoecer, porque senão não receberão seu salário ao final do mês. As pessoas esquecem que médicos podem adoecer. As pessoas esquecem que médicos são pessoas. Muitos fixam-se no ganhar dinheiro e no status de fazer o curso de medicina, mas não sabe como são os bastidores. Um mau médico traz sérias e graves consequências à população.
MEDICALYS – Existem condições de cursos de medicina serem implantados em municípios mais distantes de João Pessoa? Tanto pela carência de profissionais como de suporte hospitalar para essas populações.
DR. ESTÁCIO AMARO – Acho muito difícil conseguir docentes, tanto para a parte teórica quanto para a parte prática. Já temos muitos professores médicos concursados que estão solicitando exoneração ou diminuição do regime de trabalho, seja de T40(40 horas semanais) com dedicação exclusiva para T40 sem dedicação exclusiva ou de T40 para T20(20 horas semanais), em que os números correspondem à quantidade de horas por semana que esse profissional possui de vínculo com a instituição, sendo necessário, no mínimo, 8 horas de sala de aula por semana (no máximo 12h), sem a remuneração igual a que se obtém atuando como médico e não como professor. Infelizmente, a educação, no Brasil, não é valorizada e apesar de a universidade ser mais bem remunerada que colégios, ainda é bem aquém. Fora que é preciso investir em médicos mestres e doutores, o que também é difícil, porque já precisamos fazer 6 anos de curso e mais 3 a 5 anos de residência médica, visando uma boa formação.
MEDICALYS – O Sr. se formou pela UFPB em 2004. Acredita que o ensino tem melhorado nos últimos anos?
DR. ESTÁCIO AMARO – Quando eu fiz minha graduação, só havia o curso de medicina na Universidade Federal da Paraíba. Existia o curso apenas na UFPB – Campus I (João Pessoa) e Campus II (Campina Grande). Lembro-me que aqui em João Pessoa eram 100 vagas por ano, atualmente estamos com 165 vagas por ano. Posteriormente, houve a divisão, sendo criada a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). A geração atual tem um funcionamento diferente da minha, por exemplo. Muitos não se dedicam, muitos escrevem erroneamente. Consequência do avanço tecnológico? Talvez. Porém também é possível unir a medicina à tecnologia por meio da inteligência artificial, que, por sinal, é uma área que me encanta e que pretendo tornar uma das minhas linhas de pesquisa. Precisamos, sim, evoluir. A medicina evoluiu, portanto deveremos seguir o mesmo caminho. Mas sem involuir em muitos aspectos. O exame físico, o toque, a empatia, o diagnóstico clínico, enfim, o exercício da medicina não pode fugir da grande dedicação aos estudos e se deter apenas a solicitar exames complementares. O médico sábio saberá unir os conhecimentos médicos seculares aos da atualidade. E é isso que espero que os profissionais que se formarão façam. Se tais comportamentos acima descritos não forem adequados, penso que a população deva preocupar-se realmente com o nível dos futuros médicos.
MEDICALYS – O Sr. acredita em piora do nível de ensino em virtude da pandemia? Como foi para o aluno ficar tanto tempo sem contato humano em virtude das medidas de isolamento?
DR. ESTÁCIO AMARO – Uma das questões que vêm mais nos preocupando é justamente sobre os efeitos da pandemia sobre a formação médica. Curso de medicina “teórico”? Como ter pacientes? Como poder realizar a anamnese 1e o exame físico no paciente? O estudante se depara, assim como os professores, com um impasse. É necessário fazer o curso, mas de que forma o fazer? Como minimizar os prejuízos? As aulas remotas não proporcionam a mesma aprendizagem. Também não é fácil para o professor manter a atenção do aluno por tantas horas em frente às telas assistindo as aulas. A carga horária de aulas por semana, em Medicina, é alta. Tiveram alunos que adoeceram seriamente, neste período, pelos excessos para compensar o período perdido, por causa do início da pandemia. Ficaram sobrecarregados, esgotados e doentes. As normas de biossegurança precisam ser seguidas, todos os servidores e discentes precisam estar vacinados e manter distanciamento. Como fazer isso nos cursos da área de saúde? A Medicina certamente foi bastante prejudicada ao longo da pandemia.
MEDICALYS – O mercado deve entregar médicos mais generalistas com essa quantidade de profissionais formados todos os anos? O Sr. acredita que a formação de generalistas vai atrair muita gente para o curso de medicina, mesmo que o mercado continue estimulando as especialidades pelos rendimentos que elas oferecem?
DR. ESTÁCIO AMARO – Todos os médicos formados são generalistas. E o prudente é que procurem fazer a especialização na área que desejar, por meio de residência médica. Entretanto vem ocorrendo um novo grande problema. As pessoas não querem estudar para tentar residência médica ou mesmo não querem dedicar-se a fazer, porque a carga horária é de 60 horas semanais, incluindo plantões. Muitos estão fazendo cursos de especialização, que são feitos uma vez por mês, em um final de semana e sem prática. Esses cursos não tornam quem os fazem especialistas e, inclusive, chega a ser antiético divulgá-los como tal. Preocupa-me a busca pelas facilidades, pelo não estudo devido, por comportamentos mercenários. Acredito que o mercado terminará esgotado, com disputa desleal entre o bom profissional e aquele que é fraco, mas que é mão de obra mais barata. Ser especialista com qualidade técnica e humanização é quem será o diferencial no futuro.
MEDICALYS – As atividades de pesquisa nos cursos de graduação constituem a melhor forma de introduzir os estudantes à futura prática científica? Na UFPB existe essa indução para os alunos do curso de Medicina?
DR. ESTÁCIO AMARO – Como estive em um grande centro universitário, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vi o que é pesquisa de qualidade. Não só por terem mais recursos destinados, mas porque se preocupam em fazer uma “boa ciência” e não em pesquisar o que não contribuirá à população ou que serão achados simplórios e não significantes para o meio científico. Atualmente, vêm sendo feitas muitas pesquisas no nosso curso, muitas de excelente qualidade, mas nos deparamos com a falta de produtos básicos para que se possa pesquisar. Muitas vezes até por falta de insumo. Quantos pesquisadores ficam impedidos de avançar em ideias originais e que não conseguem dar andamento à pesquisa? Como só há alguns anos tornou-se obrigatório o trabalho de conclusão de curso para a medicina, isso fez com que os estudantes fossem obrigados a fazer algum tipo de pesquisa. Contudo o verdadeiro cientista faz por espontânea vontade, porque é de seu desejo. Quando se faz por obrigação, já vejo a “banalização” da ciência também.
Dr. Estácio Amaro
Psiquiatra
CRM/PB 5890
RQE 3657 | 3658